|
|
Diário

10/04/2008 12h34
Grêmio Haicai Sabiá inaugurado em Magé
Foto: Em sentido horário: De pé: Edson, Guim Ga, Teruko e Sr. Oda. Sentados: Iraí Verdan, Sérgio, Juliana e Benedita
O Grêmio Haicai Sabiá, na cidade de Magé, estado do Rio de Janeiro, foi inaugurado oficialmente em 17 de junho de 2006, com a presença dos haicaístas do Grêmio Haicai Ipê, Edson Kenji Iura, Teruko Oda, Guin Ga Eden, Valdir Peyceré, Sérgio Brown e Juliana Bittencourt, e os haicaístas do novo Grêmio: Demétrio Sena, Maria Madalena Ferreira, Iraí Verdan e Benedita Azevedo.
Prestigiaram a inauguração, intelectuais de outros gêneros literários: Maria Nascimento, presidente da UBT-RJ (União Brasileira de Trovadores, seção Rio de Janeiro), Marilza Albuquerque de Castro, presidente da APALA (Academia Pan-americana de Letras e Artes) e do IBRACI (Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais), Reinaldo José Ferreira, Presidente da Academia Mageense de Letras e Alzir Ferreira, tesoureiro da AML. Os haicaístas Demétrio Sena e Iraí Verdan também pertencem à AML.
A inauguração se estendeu pelos dias 17 e 18 de junho, sendo realizadas duas atividades de composição de haicais. A primeira foi uma caminhada no calçadão das Praia do Anil e Olaria (trajeto de cerca de 2 km), na tarde de sábado. Os haicais compostos durante o passeio foram submetidos à avaliação do grupo, tendo sido escolhidos os melhores.
Na manhã de domingo, em uma nova atividade, os haicaístas fizeram uma caminhada por uma trilha nas encostas da Serra do Mar, compondo mais haicais que foram avaliados posteriormente pelo próprio grupo. Assim se encerrou a programação do evento.
O objetivo principal do Grêmio Haicai Sabiá é levar esta modalidade de poesia às crianças e adolescentes das escolas e atendê-los em seu espaço sempre que precisarem de orientação. Mas o Grêmio está de portas abertas para todos aqueles que desejarem estudar e compor haicais. O grupo inicial está formado por Demétrio Sena, Maria Madalena Ferreira, Iraí Verdan e Regina Célia de Andrade, sob a coordenação de Benedita Azevedo. O grêmio funcionará em caráter permanente com reuniões mensais.
Endereço:
Rua Carlos Franco, 179,Praia do Anil,
25930-000 Guia de Pacobaíba, Magé - RJ
benedita_azevedo@yahoo.com.br
Benedita Silva de Azevedo, coordenadora do novo grêmio, é vice-presidente da AML - Academia Mageense de Letras, membro do Grêmio Haicai Ipê, diretora cultural adjunta da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA), membro fundador e assessora de divulgação do Instituto Brasileiro de Culturas Internacionais (IBRACI), membro fundador da Academia Virtual de Letras Luso-Brasileira e membro do Portal CEN "Cá Estamos Nós" de escritores luso-brasileiros (Portugal).
Publicado por Benedita Azevedo em 10/04/2008 às 12h34

10/04/2008 12h27
Foto: Em sentido horário: de pé,Edson Kenji Iura, Terko Oda, Guim Ga, Maria Nascimendo e Juliana
Grêmio Haicai Sabiá
HAICAIS COMPOSTOS DURANTE O PASSEIO NO CALÇADÃO
O rumor das ondas
Mistura-se às conversas --
Tarde outonal.
Edson Kenji Iura
Um céu quase liso --
Sobre a escuridão do mar
Estrelas de inverno.
Teruko Oda
Início de inverno.
No marulhar das águas
o barco balança.
Iraí Verdan
Anoitece em Magé
Do outro lado da Guanabara
O Rio acende.
Sérgio Brown
Vento de inverno --
Equilibra-se no barco
ave solitária.
Teruko Oda
Vento sudoeste.
Uma garça pousa no barco
quieta na noite.
Benedita Azevedo
Tardinha de inverno.
Haicaístas observam
o mar agitado.
Benedita Azevedo
Frio leve de outono --
O Pão-de-açúcar ao longe
Coberto de nuvens.
Edson Kenji Iura
Visita inesperada,
A garça olha em volta
Tantas pessoas
Valdir Peyceré
Velha mangueira
Observa o Rio de Janeiro
Desde a outra margem
Valdir Peyceré
Tarde de inverno.
O solitário socó
à espreita do peixe.
Iraí Verdan
No entardecer,
Aves em bando voam
De volta ao ninho.
Iraí Verdan
O vento do mar
nos galhos da amendoeira --
Gélido lamento.
Guin Ga Eden
Atento socó
Passam as ondas uma a uma
Nenhum peixe passa
Juliana Bittencourt
Pássaros retornam;
ninhos à beira do mar.
Mais um fim de ciclo.
Marilza Albuquerque de Castro
Final de outono...
Há no balanço do barco
medo de naufrágio.
Maria Nascimento
Publicado por Benedita Azevedo em 10/04/2008 às 12h27

10/04/2008 12h12
Grêmio Haicai Sabiá
HAICAIS COMPOSTOS DURANTE A CAMINHADA NA SERRA DO MAR
Manhã em Mauá.
Sobre o muro, as lanternas
Do malvavisco.
Iraí Verdan
Gaivotas planando
Entre nuvens e verde,
Viajo com elas.
Valdir Peyceré
Depois da subida,
Surge a esperada paisagem
Entre o bambuzal.
Valdir Peyceré
Circulo no ar
O céu em nuvens
bando de urubus
Juliana Bittencourt
Borboleta na serra
Voam mais alto que a linha
Das montanhas ao longe.
Juliana Bittencourt
Terreno abandonado
Entre os galhos retorcidos
Duas borboletas brancas
Sérgio Brown
Caminho ensolarado
À sombra da amendoeira
Um pássaro canta.
Sérgio Brown
Ao lado da tumbérgia
Um tronco queimado
Lembrança de casa.
Sérgio Brown
Tumbérgia lilás --
Subindo a trilha da mata
Despertam os poetas.
Benedita Azevedo
Descida do morro --
Sementes de abacate rolam
e junto o poeta.
Benedita Azevedo
Na curva da estrada
sobre o mato envelhecido --
Quaresmeira em flor.
Teruko Oda
Lento, mas firme --
Pela mata rarefeita
o sol de inverno.
Teruko Oda
Manhã de sol --
Disputam o céu de Magé
gaivotas e urubus.
Teruko Oda
Pé de carambola --
Animado bate-papo
Entre dois vizinhos.
Edson Kenji Iura
Domingo outonal --
Ao longe o som do pagode
Na baía tranqüila.
Edson Kenji Iura
Na Praia do Anil
a amendoeira ainda verde
faz uivar o vento...
Guin Ga Eden
Igreja dos Remédios --
Mar adentro, some o píer
na névoa do inverno...
Guin Ga Eden
Publicado por Benedita Azevedo em 10/04/2008 às 12h12

24/03/2008 03h38
Discurso de Edson Kenji Iura por ocasião da Inauguração do Grêmio Haicai "Águas de Março"
Foto: em sentido horário: Edson Kenji Iura, Marilza de Castro, Vanise Buarque, Benedita Azevedo, Márcia, Carol Ribeiro, Teruko Oda, Celso Pestana e Nelson Savioli.
Amigos
Já estive em muitos lugares do Brasil e posso relatar uma experiência interessante: não há lugar onde eu me sinta mais estrangeiro do que no Rio. Em nenhuma cidade do Brasil os vendedores ambulantes assediam-me tanto como se eu fosse um turista de um país distante. E em nenhuma outra cidade encontro tantos nativos amáveis tentando conquistar minha amizade dirigindo-me simpáticas palavras em língua inglesa.
Sou brasileiro nascido em São Paulo, uma cidade que se transformou numa das maiores metrópoles do mundo, graças ao sangue e ao suor de milhões de pessoas que não nasceram lá, mas para lá se mudaram, vindas de todos os lugares da Terra. Essa coabitação razoavelmente pacífica de sotaques e culturas teve suas conseqüências boas, e uma delas é justamente a minha presença aqui hoje. Mas tenho medo que o multiculturalismo e a globalização, turbinados pelo poder das relações econômicas, acabem colocando à sombra uma coisa muito preciosa, que é a alma brasileira.
Que alma brasileira é essa? Não sei definir intelectualmente, mas é aquilo que nos enche de emoção ao vermos pela TV as imagens arquetípicas do Cristo e do Pão de Açúcar, lermos em Machado de Assis as mais profundas observações sobre os tipos humanos e o cotidiano na antiga capital do Império, ou ouvirmos um samba de Noel Rosa exaltando a vida boêmia e a malandragem cariocas. Entendi que a causa de eu me sentir um estrangeiro em meu próprio país é o choque do contato, tão raro, com essa alma brasileira, que só tenho aqui no Rio. Para ir direto ao assunto, a alma brasileira tem endereço. Que me perdoem gaúchos, amazonenses e baianos, mas a alma brasileira tem sotaque carioca e mora num ponto qualquer entre os morros e as praias do Rio de Janeiro. O resto é regionalismo ou exotismo.
Enfim, estar hoje na cidade-maravilhosa, no coração do Brasil, cercado de amigos, me enche de confiança para augurar que o haicai brasileiro, não apenas escrito em português, mas o verdadeiro haicai de alma brasileira, só pode nascer aqui, entre os confrades do Grêmio Haicai Águas de Março. Em nome do seu grêmio-irmão paulista, aceitem os nossos votos de vida longa e produtiva.
Edson Kenji Iura
Rio, 16 de fevereiro de 2008
.........................................................................
Publicado por Benedita Azevedo em 24/03/2008 às 03h38

24/03/2008 02h59
Reportagem de O Globo sobre a Inauguração do Grêmio Haicai "Águas de Março"
No verão do Rio,
novo grêmio se forma.
Bem-vindo, haicai!
(OGlobo - 25/02/2008 05:00:07)
André Miranda
O título aí do lado é um poema haicai - ou, melhor, uma tentativa de se escrever um poema haicai clássico. Parece simples, mas há regras rígidas a serem seguidas. São 17 sílabas, divididas em um verso de cinco, um de sete e outro de cinco. O poema tem que tratar de um evento específico, fazer referências à atual estação do ano, além de associar o efêmero ao permanente. O "efêmero" do título é que na semana passada foi realizado um encontro de poetas de haicai. O "permanente", por sua vez, é que esse tipo de encontro será realizado todos os meses, organizado pelo Grêmio Águas de Março, a oitava associação brasileira de haicai e a primeira com sede no Rio.
O encontro aconteceu numa sala da Fundação Roberto Marinho, no Rio Comprido, e marcou a fundação do grêmio. Cerca de 20 pessoas se deslocaram de suas casas - algumas, de Niterói e São Paulo - num dia de sol para conversar, escrever poesias e festejar a criação da associação. Antes, o estado do Rio tinha apenas um único grêmio de haicai, o Sabiá, com sede em Magé e fundado pela professora Benedita Azevedo. Agora, Benedita é também uma das responsáveis pelo Águas de Março:
- Em Magé, nós funcionamos há dois anos e temos seis associados. Nosso objetivo é ensinar o haicai nas escolas.
O inusitado pequeno número de participantes é considerado normal para uma forma artística com poucos adeptos no Brasil. O mais antigo grêmio do país, o Ipê, fundado em 1987 e com sede em São Paulo, tem entre 15 a 20 membros. O Águas de Março, por sua vez, vai iniciar suas atividades com 13 associados. E praticamente todos eles garantem que o gênero é muito mais do que um hobby.
- Eu uso o haicai nas empresas há 20 anos, como forma de capacitar os funcionários a serem mais objetivos. A comunicação malfeita nas empresas custa tempo e dinheiro - conta o executivo Nelson Savioli, autor do livro "Burajiru haicais".
"No Japão, o haicai é um gênero de poesia popular"
O primeiro encontro do Águas de Março começou com uma palestra do engenheiro Edson Kenjiu Iura, membro do Grêmio Ipê. Com traços orientais e fala mansa, ele foi convidado a vir ao Rio para apresentar a poesia de Matsuô Bashô aos membros da nova associação. A tarefa é das mais prestigiosas. Bashô é considerado o pai do haicai, é o japonês que lá no distante século XVII popularizou a poesia.
- Ele era um samurai de baixa posição antes de largar tudo para se tornar uma espécie de sábio - explica Iura. - No Japão, o haicai é um gênero de poesia popular. Tem programa de TV, os jornais publicam colunas sobre o assunto. Lá, são milhões de associações.
Na palestra, o engenheiro projetou num telão e comentou dez poemas de Bashô, tanto no original, quanto na tradução para o português. As pessoas no auditório ouviam tudo com atenção e faziam anotações. Algumas tiravam fotos, e uma participante ficou com a câmera digital levantada, gravando a palestra.
Como manda a tradição do haicai, os poemas de Bashô trazem claras menções a aspectos da estação do ano - o que os adeptos da poesia chamam de "kigo". Pelos versos "Primeira chuva de inverno/ O macaco talvez queira/ Uma capinha de palha", Iura afirmou que Bashô se tornou cúmplice do macaco. Já em "Vai-se a primavera/ Lágrimas no olho de peixe/ E choram as aves", o engenheiro disse que se tratava de uma metáfora do poeta japonês ao abandonar seus discípulos.
Por mais que pareçam estranhos para quem não está acostumado com o formato, os poemas de Bashô impressionam. Ainda mais quando se entende o contexto em que eles foram escritos. Pelo haicai "Ah, rouxinol¡/ Defecou sobre o moti/ À beira da varanda", Iura explicou que moti é um tipo de bolo e afirmou:
- O rouxinol é considerado o mensageiro da primavera. Bashô toma um pássaro tão apreciado pela tradição e o põe em posição vulgar. O poema fala de um ambiente em que animais compartilham o mesmo local com os homens, sem medo.
Depois da palestra sobre Bashô, os participantes do primeiro encontro do Grêmio Águas de Março foram convidados a elaborar seus próprios haicais, num concurso chamado "sekidai". Benedita propôs dois temas para as poesias: "arco-íris" ou "flamboyant". Cada um pegou um papelzinho, uma caneta e passou a escrever. O resultado será divulgado entre o grupo, pela internet.
- O haicai é um ótimo exercício, principalmente para criança. É uma forma de ela expressar com espontaneidade sua emoção - garante a professora Teruko Oda, que ensina haicai em escolas da rede pública de ensino de São Paulo.
O Ocidente começou a descobrir o haicai no século XIX, com a abertura da cultura japonesa para o mundo. Foram poetas franceses e ingleses que passaram a divulgar a poesia. Desde então, autores como W. H. Auden, Jorge Luis Borges, Allen Ginsberg e Jack Kerouac fizeram haicais.
Pimentel, de 95 anos: "É a beleza pela síntese"
Já no Brasil as primeiras notícias sobre o gênero remetem a 1919, com Afrânio Peixoto, escritor baiano que foi membro da Academia Brasileira de Letras. Ele leu sobre o haicai em livros franceses e trouxe a arte para cá. A ele se seguiram outros entusiastas famosos, como Guilherme de Almeida, Paulo Leminski e Millôr Fernandes.
- O haicai tem que ser uma experiência sincera. Não dá para se escrever sobre algo que não se conhece - conta Douglas Eden Brotto, um capitão de fragata aposentado de 70 anos que, no encontro, não tirava os óculos escuros estilo Rayban. - Eu sempre fui muito poeta para chegar a almirante.
Brotto não era o poeta mais experiente na reunião do Águas de Março. Esse título informal pertencia ao jornalista fluminense Luis Antônio Pimentel, de 95 anos. Pimentel era tratado por todos os presentes com reverência. Ele conheceu o haicai quando morou no Japão, entre 1937 e 1942, fugindo do Brasil depois de fazer campanha anti-integralista contra Getúlio Vargas. Desde então, já publicou 22 livros sobre a poesia japonesa.
- O haicai não é apenas a menor poesia canônica do mundo. É a beleza pela síntese - diz Pimentel.
© 2006 Todos os direitos reservados a Infoglobo S/A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem prévia autorização da Agência O Globo
Publicado por Benedita Azevedo em 24/03/2008 às 02h59
|